segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Mais uma sobre profissões
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Já que o assunto é arte...
(A arte está dentro ou fora dos museus?)
Árvores pintadas de azul, bacias amarelas espalhadas pelo campus da universidade, a frase “Aonde é que tu vaaaai?” estampada em pontos estratégicos das avenidas e ruas... decididamente, Santa Maria, município localizado no interior do Rio Grande do Sul, não é uma cidade convencional.
Uma idéia
Giulio Carlo Argan, crítico italiano
Se você seguir as formigas desenhadas no rodapé das paredes do prédio 40 da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pode ser que encontre Rebeca Lenise Stumm. Rebeca, professora do curso de Desenho e Plástica, é sub-chefe do Departamento de Artes Visuais e orientadora do projeto Intervenções Artísticas no Espaço Comunitário – Laboratório Reflexivo sobre Linguagens Contemporâneas. Mas não confunda as coisas: as formigas foram pintadas pelos estudantes de Desenho Industrial, o que confirma a tese de que o conceito de artista está sumindo; segundo Rebeca, todas as pessoas devem ser consideradas artistas.
Descendo ao subsolo do prédio, há uma sala onde, bem no centro, em meio a quadros, esculturas, restos de materiais espalhados pelo chão, jaz um armário. É daí que Rebeca retira a pasta com as fotos dos trabalhos dos seus alunos - um “rio” de lona percorrendo o campus, árvores com tiras de papel vermelho colados ao tronco, quilos de argila disponibilizados para o manuseio público em alguns setores da universidade, um rastro de sangue dentro do Centro de Artes e Letras... Trata-se de intervenções urbanas, obras de arte que modificam o ambiente em que estão inseridas, fazendo com que as pessoas que circulam por esse ambiente passem a olhá-lo com outros olhos. A intenção é fazer com que a sociedade questione a sua maneira corriqueira de agir sobre as coisas do cotidiano, fazer com que o banal se torne ponto de reflexão.
- As crianças às vezes acham que estão num parque de diversões quando vão à Bienal – comenta a professora.
De fato, apesar do sucesso alcançado junto ao público, há uma preocupação em não transformar a intervenção em mero entretenimento, inclusive na produção. Pois Rebeca diz que é a intenção do autor que diferencia o bom do mau artista. Além do mais, não há uma preocupação maior com o acabamento da obra, já que esta acaba falando sobre o próprio processo de fazê-la. O que conta, portanto, é o referencial teórico do trabalho.
A história do artista holandês Van Gogh, que se trancou sozinho em seu ateliê e, de propósito, cortou a própria orelha, é um exemplo citado por Rebeca do que a arte não quer mais. Nesse novo cenário da produção artística, é o trabalho em grupo que prevalece. Como na música e nas artes cênicas. A Arte Contemporânea, em si, já representaria uma busca por uma maior interação com o público. E, nesse caminho contrário à elitização da arte, as intervenções urbanas exercem papel fundamental.
Um quadro
Jorge Luis Borges, escritor argentino
- Estamos na terra de ninguém! – desabafa Alfonso Benetti, coordenador do curso de Desenho e Plástica.
A sua visão justifica-se assim: já não se sabe mais o que é retrógrado e o que é vanguarda. Há uma busca pela novidade, acima da qualidade. Hoje em dia, arte é aquilo que é declarado como tal, e ponto final.
Sentado numa cadeira do seu ateliê, as pernas cruzadas, as mãos mexendo num rolo de fita adesiva, os olhos em nenhum momento fitando o interlocutor, Alfonso revela sua opinião sobre intervenções urbanas: em resumo, uma arte “inócua” e “pífia”. Por quê? Ora, porque a sensação de estranhamento, típica das intervenções, é esgotada ao primeiro olhar; após isso, a obra não suscita divagações mais profundas. Não há permanência: as obras se destroem logo após serem construídas, tornando-se materialmente “descartáveis”. Assim, as intervenções urbanas acabam tendo, ironicamente, um papel alienador.
Alfonso estabelece uma ligação com a mídia: ela mostra o que choca ou é visualmente atraente e, assim, as intervenções urbanas preenchem espaço; no sentido oposto, essas acabam ganhando legitimidade como obras de arte ao aparecerem na mídia. A própria sensação de estranhamento seria uma idéia bem típica da indústria cultural em que se transformou a sociedade contemporânea, querendo atrair a atenção das pessoas para qualquer coisa, fazer alarde sobre tudo. O professor também enxerga uma concorrência entre as intervenções urbanas e a publicidade na busca pela sensação de estranhamento, dando origem a uma espécie de guerra visual nos espaços urbanos.
Para Alfonso, a relação do interventor urbano com seu público é “cínica”: na maioria dos casos, o primeiro não sabe o que está dizendo, é simplesmente discurso em cima do vazio; o segundo, que já não está familiarizado com a linguagem da arte tradicional, vê-se mais perdido ainda com essa nova linguagem das intervenções urbanas. Assim, Alfonso vai contra a idéia de que a Arte Contemporânea proporciona uma aproximação com o público. Além do mais, o estranhamento pode ser entendido como uma brincadeira com o sentimento das pessoas, o que, segundo Alfonso, não justifica o trabalho artístico. Para ele, a arte não é deboche.
O professor Alfonso trabalha com pintura há trinta anos. E o que é arte para ele, então? Bem, um pedaço da sua resposta está nas idéias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: a arte é um afago, um carinho para o homem. Tem de ser humana, ter vitalidade, passar a presença viva do artista na obra, não pode ser mera técnica. Mas a arte não pode lidar com protesto, então? Aí é que entra o outro pedaço. Segundo Alfonso, pode sim, mas tem que haver sempre uma proposta, uma esperança, uma redenção. Não pode somente botar mais sujeira no mundo, que disso o mundo já está cheio.
Outra idéia
Edgar Allan Poe, escritor norte-americano
Uma repartição de vidro separa Tetê Barachini de seu ateliê. E é assim que a professora tem um pequeno escritório à sua disposição, com poltronas, cadeiras, um armário, uma escrivaninha, livros... e um computador, de onde se pode acessar o site do projeto Deusa Morna, que Tetê orienta. Enquanto as imagens das intervenções urbanas produzidas pelos seus orientandos enchem a tela, a professora fala de uma palestra que o grupo promoveu: um estranho texto sobre o amarelo foi lido para uma platéia que, devido à disposição caótica das cadeiras, não ficava voltada para o palco; ao mesmo tempo, câmeras filmavam a movimentação fora do edifício e as imagens eram passadas num telão; além disso, o interior do anfiteatro era iluminado por pontos de luz dispostos de maneira aleatória. A palestra acabou se tornando, assim, uma nova intervenção urbana.
Surge a primeira pergunta: essa não acaba se tornando uma arte fácil de se fazer? Tetê responde com outra pergunta: quem disse que a arte tem que ser difícil? E questiona a visão religiosa da arte como algo que requer silêncio e seriedade para apreciação, defendendo que o entretenimento pode estar presente tanto na sua fruição quanto na sua produção. O que não exclui a necessidade da existência do artista; são eles que têm o domínio dessa linguagem da arte, portanto, são os únicos aptos a produzir intervenções urbanas que não causem apenas um choque, um susto, mas que proporcionem uma pausa na vida urbana, com o intuito de colocar as coisas em novos lugares.
E depois desse estranhamento, o que sobra? Nada. Pois Tetê diz que é proposital deixar as obras inacabadas. Neste mundo rápido e dinâmico, não há tempo para detalhismo: o que importa é o discurso. Os interventores urbanos querem apenas provocar desconforto. Não se busca a permanência dessa sensação. Os trabalhos são construídos para serem fugazes mesmo. O papel do artista, então, é estar sempre buscando novas maneiras de provocar a sensação de estranhamento.
- Nós não somos artistas de rua, mas sim artistas indo para a rua – esclarece Tetê.
E isso não significa somente uma aproximação com o público. Segundo a professora, o movimento é uma tentativa de popularizar a discussão sobre arte, sem entrar em questões mercadológicas. Até porque não há espaço para todos os artistas exporem nos museus.
A professora Tetê faz questão de ressaltar que as intervenções urbanas não são feitas para pequenas comunidades. É, sim, um movimento criado para e a partir do mundo urbano. E como se lida com a diversidade de culturas desse público tão heterogêneo que são os habitantes das cidades? Tetê diz que é através do universal. Trata-se de uma nova linguagem, diferente da usada na arte tradicional. O espectador é diferente, a arte também. Segundo Tetê, as intervenções urbanas representam uma nova postura perante o mundo. Em outras palavras, trata-se de uma arte do nosso tempo.
Uma conclusão?
Umberto Eco, crítico italiano
O leitor atento perceberá que há coincidências nas falas dos três entrevistados, mesmo quando as idéias se opõem. Contradição ou apenas pontos de vista diferentes? Talvez uma demonstração de que a diversidade cultural deve ser pensada não só em termos de fruição, mas também de produção da obra de arte. Pode ser uma questão de gostos e de atitudes, tanto do artista quanto do público.
E então, a arte está dentro ou fora dos museus? Para essa pergunta não há uma só resposta. O debate em torno da Arte Contemporânea é muito amplo. Por outro lado, ele só é possível graças a discussões como a do curso de Desenho e Plástica da UFSM. No fim, é um debate entre indivíduos (e suas idéias). Portanto, cabe agora ao leitor tirar suas próprias conclusões.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Um dia triste
A gente aprende um pouco com cada entrevistado. Sobre o processo de fazer jornalismo, sobre a vida em geral. Com alguns aprendemos mais.
Aprendi muito, mas muito mesmo, entrevistando Marcos Kahn Su Griá, autodenominado Chinesa. Índio caigang, morador de rua, homossexual, Chinesa tem uma história carregada de tripla exclusão e heroísmo.
Você o conhece. Ele aparece no fim de um dos vídeos sobre a invisibilidade dos visíveis, numa cena que o editor Leandro Lopes teve a sensibilidade de selecionar. Silenciosamente, Chinesa deposita sua xícara de café sobre a mesa.
Fui eu que fiz essa entrevista com Marcos. Durou mais ou menos uma hora. Era um dia chuvoso em Porto Alegre-RS. Cheguei no GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids) no meio da tarde, já encharcado. Chinesa parou o que estava fazendo para me receber, no horário que havíamos marcado.
No meio da conversa sobre sua vida, houve dois momentos cruciais, em que cheguei a pensar em interromper a gravação, tamanha a emotividade. No primeiro, após um tempo falando das dificuldades que enfrentou, Chinesa contou como, diante de pessoas na mesma situação que ele, porém mais jovens, procura passar uma imagem positiva da vida nas ruas. Ele não quer provocar desilusão, apesar de sofrer isso diariamente. Ele, com menos de 40 anos, assume seu papel de mentor, suporta sua dor pelo bem dos outros.
O segundo momento crucial surgiu a partir de uma frase dita por Chinesa. Ele dizia que a vida de morador de rua tem muitas coisas boas, mas muitas dificuldades também. Eu disse:
"Marcos, nós falamos bastante até agora do lado ruim. Me fale sobre as coisas boas agora."
Chinesa parou, olhou para cima, segurou o choro. Falou:
"Uma coisa boa é quando, depois de muitos anos, encontro um amigo, que também era morador de rua, e ele me diz: 'Chinesa, vem conhecer minha casa, vem conhecer meu filho.'"
...
Chinesa faleceu na quarta-feira. Ainda não sei o motivo.
...
Eu quero dizer que aprendi muito ouvindo tua história, Marcos. Muito mesmo. Lembro que saí da entrevista pensando: isso é jornalismo, isso é contribuir com algo. Além de qualquer glamour. Jornalismo de ser humano para ser humano. Comunicação de coração para coração.
Aprendi com tua força, tua raça. Isso eu levo comigo, na minha vida profissional e pessoal, desde aquela entrevista.
Obrigado, Chinesa!
Augusto Paim
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Sotaques do Esporte
Essa alegria do Leandro passou-se comigo também. Um final de semana desses, eu visitei a família em Santa Maria/RS. O pai esquentava a água pro chimarrão, a mãe estendia algumas roupas no varal. Eu, ocioso, liguei a tevê, coisa boa de se fazer numa manhã de domingo, pois a tevê fica bem esportiva e faz exercícios físicos no meu lugar.
Estava eu nesse ócio gostoso, curtindo a casa dos pais. A tevê transmitia ao vivo a Maratona Internacional de São Paulo. Peguei o finalzinho, bem na hora que o narrador gritou:
- E Claudir Rodrigues, do Rio Grande do Sul, vence a maratona!
Claudir Rodrigues? Peraí, esse não é o nome do meu entrevistado no Fiz + Sotaq...?
E lá estava o rosto familiar do Claudir, o rosto que eu aprendi a reconhecer depois de uma manhã de entrevista em frente ao quartel onde ele treina alguns dias na semana, na cidade de Santa Maria. Um rosto que me falou das dificuldades da profissão, das renúncias que um atleta tem de passar, da relação com a mídia, dentre tantas outras coisas. E Claudir atravessou a linha de chegada em São Paulo com a mesma passada com que treina a semana inteira em um potreiro, treino esse que por uma manhã também pude acompanhar.
E lá estava ele agora, em São Paulo, quebrando todas as previsões, deixando o narrador da tevê todo atrapalhado (ele visivelmente não conhecia o vencedor, pois a cada hora o chamava por um nome diferente). Dessa vez não foi o Frank Caldeira, não foi o Vanderlei Cordeiro. Quem ganhou a Maratona Internacional de São Paulo foi ele, Claudir Rodrigues, o meu entrevistado.
terça-feira, 22 de julho de 2008
O crime compensa...
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Foram madrugadas ao sabor das ‘doces-amargas’ saladas de sentimentos. Em um momento angústia, no outro, alegria, logo depois... desespero. Aí achava que não daria tempo, mas enfim, finalmente, graças ao São Protetor das Tecnologias Vencíveis, o vídeo ficou pronto! “Aleluia!”, ouvi os anjos da consciência pesada gritarem. Estava finalizado o primeiro dos muitos que viriam, estava com início, meio e fim, o Fiz + Sotaques de estréia.
Ninguém havia dito que seria uma tarefa fácil. Primeiro desafio foi superar a comunicação não-oral, a falta de uma boa conversa tête-à-tête. Tudo tinha que ser minuciosamente dito e redito, lido e relido nas conversas sonolentas de uma madrugada afora via msn. Depois, era hora de receber todos os vídeos, um por um, e baixá-los ao mesmo modo (um por um). O computador, nesse momento, trabalha muito mais que eu, não posso negar. Aí chega a hora de assistir tudo e selecionar fala por fala; pedaço por pedaço. E sentir o coração partir porque aquela fala está ótima, mas ficaria solta nesse vídeo. Isso aconteceu o tempo todo. Aliás, entrevistar as pessoas certas gera esse problema: quase tudo que elas falam merece espaço. Mas alguém já disse: ‘a vida é uma ilha de edição’. E editar é muito mais que cortar palavras (como sugeria Drummond): é cortar idéias.
Depois do pré-roteiro estabelecido, hora de explicar detalhe por detalhe ao editor (que assim como nós, pela primeira vez vê e participa de um processo como esse). Daí em diante, basicamente, é negociar ‘tira isso’, ‘coloca isso’, ‘põe essa sonora aqui’, ‘encaixa essa fala lá’. E a idéia – que começou em uma reunião de pauta com gente de tudo que é canto do país em frente ao computador ao mesmo tempo – vai ganhando forma, braços, pernas, cabeça e nasce, e nos enche de orgulho, e arranca comentários, e nos faz dizer: as madrugadas e as saladas valem a pena. O crime compensa!